No Semiárido brasileiro, mais de 90% dos domicílios rurais não contam com saneamento adequado. A maior parte dos dejetos é lançada diretamente no meio ambiente ou destinada a fossas rudimentares, sem oferecer segurança sanitária.

Dessa forma, os efluentes domésticos são despejados diretamente no ambiente ou direcionados para fossas rudimentares, que se caracterizam como simples sumidouros. Esses efluentes, liberados no ambiente sem tratamento adequado, causam severos danos ao meio ambiente e à saúde pública.

Segundo Hammer (1979), a produção per capita média de esgoto sanitário bruto é de aproximadamente 400 litros por dia. Quando pensamos em regiões semiáridas, onde a disponibilidade de água é um fator limitante, imaginamos que essa produção seja menor. Pensando nisso, o Instituto Antônio Conselheiro (IAC) tem acompanhado a produção de esgoto doméstico por residências rurais localizadas no semiárido cearense, onde foi constatada uma produção média anual de 60.000 litros de águas cinzas e 17.000 litros de efluentes dos vasos sanitários, compostos por água, fezes e urina.

Observamos que, mesmo em condições de semiárido, uma residência produz uma grande quantidade de esgoto. Faz-se importante destacar que essa água residual possui elevada quantidade de matéria orgânica, óleos e gorduras, tornando-a rica em nutrientes essenciais para a produção vegetal, tais como nitrogênio, fósforo, potássio e cálcio, entre outros. Para se ter uma ideia dessa potencialidade, estudos têm demonstrado que um ser humano produz, anualmente, em média, 500 litros de urina e 50 litros de fezes, contendo aproximadamente 4.505 gramas de nitrogênio, 580 gramas de fósforo e 1.270 gramas de potássio (OTTERPOHL et al., 2002).

Para transformar essa realidade, o Instituto Antônio Conselheiro, junto ao Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido (FCVSA) e em parceria com o Governo do Estado do Ceará, realizou a implementação de Tecnologias de Saneamento Rural no estado do Ceará. O projeto foi inspirado na experiência piloto no Sertão Central, unindo a tecnologia social ao quintal produtivo e ao reuso de água cinza, sendo uma unidade demonstrativa na residência de Aureliano Leal e Liduina Leal, localizada na comunidade Aroeiras, no município de Quixeramobim, Ceará. A iniciativa mostrou como tecnologias sociais simples e de baixo custo podem transformar a realidade do Semiárido.

Como essas tecnologias de saneamento rural funcionam na prática?

Reuso de Água Cinza:
A água do dia a dia, proveniente do banho, da pia e da lavagem de roupas, geralmente é descartada sem nenhum aproveitamento. Essa água, chamada de água cinza, pode se tornar uma grande aliada quando passa por um sistema de filtragem. No caso da família, com o reuso, a água é conduzida até uma caixa de gordura, onde ficam retidos óleos e resíduos. Depois, segue para filtro biológico que contém seixo, brita, areia, serragem e húmus, que retiram impurezas e odores. A água limpa resultante vai para um reservatório e, em seguida, para a caixa d’água, de onde é distribuída para irrigar hortas, quintais e árvores frutíferas.

Posteriormente a essa implementação, em 2019, o IAC implementou uma unidade demonstrativa da Fossa Ecológica, desta vez no quintal dos agricultores Francisco Linhares e Antônia do Carmo Góes, localizada na comunidade Muxinató, no município de Senador Pompeu.

Fossa Ecológica:
A fossa ecológica oferece uma alternativa segura e sustentável para tratar o esgoto doméstico. Diferente das fossas comuns, que muitas vezes contaminam o solo e a água, ela imita os próprios processos da natureza. O esgoto passa por câmaras de fermentação, onde microrganismos decompõem a matéria orgânica e eliminam agentes nocivos. Depois, atravessa camadas de pedras, brita e areia até chegar ao solo, onde as plantas absorvem nutrientes e ajudam na filtragem final.

Como alternativa ao reuso de água cinza, em 2023, o IAC implementou o Canteiro Filtrante, também na comunidade Muxinató, no município de Senador Pompeu, desta vez no quintal dos agricultores Glauceane Magalhães e Suderly Andrade.

O canteiro filtrante trata-se de uma wetland construída de fluxo horizontal subsuperficial, cujas características foram adaptadas para melhor se adequar à realidade e às condições edafoclimáticas do semiárido cearense. O canteiro filtrante é uma tecnologia social de captação e tratamento de águas cinzas domiciliares, cujo funcionamento inspira-se na própria natureza, mais especificamente em áreas alagadas naturais como pântanos e mangues. A tecnologia social explora os ciclos biogeoquímicos existentes nos mangues e pântanos para serem utilizados no tratamento de esgotos. Segundo Begosso (2009), esses sistemas são eficazes na remoção de nitrogênio, fósforo, metais pesados e matéria orgânica, além de apresentarem considerável redução de microrganismos. O canteiro filtrante utiliza basicamente vegetação macrófita emergente, comunidade microbiana e substrato poroso de alta condutividade hidráulica (brita e areia lavada) para a remoção dos poluentes do efluente a ser tratado.